Quando o moralismo acha que pode falar pela ciência: alguém se lembra da “Cura-Gay”?

Recordo-me que, em meados de 2014, uma onda “conservadora” pedia para que Psicólogos e agentes da Saúde Mental implantassem métodos que visassem combater o “homossexualismo”. Segundo aqueles que defendiam essa ideia, a homossexualidade deveria ser tratada como doença, e os profissionais da saúde deveriam conceder tratamento para que “os enfermos” se livrassem desse mal.

Evidentemente que essa posição não estava ligada a nenhum dado científico, a nenhuma questão empírico-conceitual, nem tampouco tinha qualquer estrutura de conhecimento histórico sobre o tema. Era, desse modo, defendida por gente que desconhece a trajetória de lutas e conquistas no âmbito da saúde mental em todo o mundo. Pessoas costumeiramente reativas, sem conhecimento sobre o tema e sobre a história do tema, que propunham algo antes existente, e que fora superado há décadas.

Falando em primeira pessoa, tenho a impressão de que esse foi o primeiro contato que tive com o que estaria por vir em maior escala: “o vício da atenção ao discurso, sem conteúdo basal”. No plano concreto, isso diz de gente que tenta angariar adeptos com o mesmo preconceito, com uma fala que parece corroborar com os acontecimentos científicos, mas que se distancia cada vez mais do conhecimento amplo que fundamenta a discussão, em si.

Nesse âmbito, fomos ladeira abaixo. O discurso coxo de quem não tem qualquer conhecimento prático-teórico sobre o que procura tanto discutir, gerou uma legião delirante de macroeconomistas, psicólogos, cientistas políticos – etc – que se fundamentam em papaguear o telejornal, a revista semanal e, principalmente, em um fenômeno bastante atual, as redes sociais. Pode ser um triunfo do senso comum. Não é à toa que essa gente tenta desprezar os especialistas – apesar de, na primeira oportunidade que aparece, inventarem que têm um mestrado ou doutorado (não é, Salles e Damares?) – que procuram, de fato, compreender o que está em jogo na macroestrutura e suas repercussões no modo de vida do cotidiano. Deve ser sofrido, pra essa gente, ter que conversar com alguém que entenda daquilo que eles supõem entender.

Mas não vamos desanimar. O Brasil tem avançado em uma área específica e de grande valia para as relações internacionais no plano populacional: o conhecimento na língua inglesa. Termos como “Fake News” e “Golden Shower” já são de apreensão do senso-comum e estão nas discussões da família brasileira.

Assim como foi a discussão sobre “cura-gay”, esses dois termos deixam bem claro o desejo de muitos brasileiros: distorcer e rasificar a discussão e fiscalizar as práticas sexuais alheias.

Parece-me, com certa infelicidade, que é apenas disso que se trata o interesse político de muitos: implorar para que o Estado e o conhecimento científico dêem aval para suas próprias angústias e preconceitos. Conseguiram, de certa forma, até 2022. No entanto, engana-se muito aquele, ingênuo, que pensa que plataforma política, em um país de terceiro mundo, barra os avanços do conhecimento do homem sobre o homem no mundo.

Afinal, em toda a história, os “mitos” foram derrubados por conhecimento científico, certo?

Por Bruno Seabra

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