A humanidade se perdeu, mas ficaram os delírios e as quimeras

É difícil não olhar para nossa história, enquanto humanidade, sem perceber nosso desejo de domínio sobre nossos iguais, sem notarmos nosso desejo de imperar e moldar o outro ao nosso particular conceito sobre verdade. Nutrimos repulsa dos que pensam diferente, odiamos os que não aceitam nosso estilo de vida ou nossas crenças, mas por quê? Porque não conseguimos ou não queremos coexistir?

Testemunhamos a monstruosidade dos nossos atos em todas as páginas da nossa história. Torturamos, matamos, dizimamos, cometemos diversas atrocidades contra nossos semelhantes, simplesmente porque não aceitamos as diferenças, não aceitamos o que há de mais belo em nós, nossa pluralidade e diversidade cultural.

Quão desventurada e funesta é uma sociedade racista, preconceituosa e intolerante. Quão angustiante é olhar através da TV, dos jornais ou das redes sociais e vermos uma humanidade dominada pela ignorância e pelo instinto mais sub-humano da espécie. 

Enquanto escrevo este texto marginal, fico a pensar nos cristãos martirizados nas arenas romanas, nas pessoas, adultas e crianças, que morreram por causa das cruzadas dos cristãos contra os mulçumanos, mouros e judeus, nas vítimas do holocausto e do massacre da noite de São Bartolomeu, nos cientistas e pensadores brutalmente assassinados pela igreja nos tribunais da inquisição, nos palestinos e israelenses atormentados diariamente por uma guerra motivada pela fé, nos seis milhões de índios dizimados no Brasil, nos negros vilipendiados pelo apartheid na África do Sul e pela segregação racial nos EUA.

O que mais me aflige, neste pensamento, é a certeza de que a humanidade não expurgará este mau de sua natureza, pois ela não evoluiu, não se humanizou. Basta lembrarmos como homossexuais, mulheres, idosos, pobres, pessoas com fé dissemelhantes, ateus, índios e negros ainda são tratados. Continuamos uma humanidade preconceituosa e empenhada em roubar a liberdade e a dignidade dos menos favorecidos.  

A humanidade fracassou e se perdeu. A única espécie pensante e criativa, que poderia ter construído um mundo melhor para todos, preferiu deixar seus instintos reptílicos, mais primários, decidirem por ela. Sua ganância e desejo de poder, de subjugar, humilhar e torturar sua própria espécie, lhe deram uma face repugnante e desprezível.

Posso estar delirando em quimeras, mas foram os sonhos e os delírios que nos fizeram resistentes e nos deram força para vencer algumas batalhas histórias. Foram eles que nos trouxeram o fim da escravidão e depois da segregação e do apartheid. Precisamos de um choque de consciência humana para nos sensibilizar diante da dor e da necessidade dos que ainda estão marginalizados, para que nos livremos de todos os tipos de preconceito e discriminação, para que nos tornemos mais condescendentes e empáticos em relação aos nossos semelhantes, para que não odiemos os que pensam e vivem diferente de nós.

A pluralidade, de estéticas e ideais, é parte da riqueza humana, que precisa de respeito e liberdade. Nunca seremos iguais, isto é certo, mas, evidentemente, podemos nos respeitar e conviver harmoniosamente. Cabe a nós, seres humanos, compreender e aceitar que nossa felicidade está, significativamente, atrelada ao bem-estar e à felicidade de todos, e que tal compreensão produza mais pessoas com delírios e quimeras para que avancemos um pouco mais em direção do ideal comum.

Por Alvaro Santos
Foto: Robson Leandro da Silva

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