A melancolia contagiante de um governo infeliz

Todos sabemos que o Brasil é conhecido, lá fora, como um lugar de gente feliz e festiva. Somos assim mesmo, apesar de todas as dificuldades econômicas e sociais. Claro que há pessoas que fogem ao estereótipo, mas de uma forma geral, somos expansivos, amáveis e alegres.

Infelizmente uma atmosfera melancólica está pairando sob o país e mudando o estado de ânimo dos brasileiros. Alguns culpam a crise, outros a internet, já eu, penso que o maior responsável por essa sensação de angústia e tristeza é o novo governo e suas ações insensatas.   

O governo Bolsonaro está destruindo nosso orgulho e nossa esperança. Os ataques contra nossas instituições e nossas riquezas, conquistadas a duras penas, têm feito muitos questionarem o porquê de tanta luta, de tanto trabalho para avançar em tecnologia, desenvolvimento, educação e políticas sociais, para depois um louco, opressor idealista, fundamentalista, misantropo e xenófobo às avessas, assumir o poder e, em questão de dias, jogar tudo na privada e apertar a descarga.

A tristeza se intensifica quando se percebe o grande aumento da violência contra negros, pobres, gays, mulheres, índios, professores, alunos, intelectuais e todo aquele que pensa diferente desse governo. É deprimente ver a democracia sendo violentamente aviltada e os direitos humanos desrespeitados.  

A democracia deu voz a todos e um maravilhoso sentimento de ser absoluto. Deu-nos significado, esperança e proteção. Agora, com esse governo, emergido dos porões do inferno, tudo está em risco. A incerteza e o sentimento de impotência está nos tirando a alegria que ainda resta e substituindo pelo medo, o medo de voltarmos aos dias onde a opressão e a ignorância compunham o fundo histórico do Brasil.

Até mesmo os bolsonaristas não acreditavam que as universidades federais seriam atacadas de forma tão covarde e desprezível. A educação, que forma a base do conhecimento e do desenvolvimento de um povo, foi deturpada e demonizada por estes, que temem a ideia de encarar um povo instruído e empoderado pelo conhecimento.

É deprimente ver o fim do Programa Mais Médicos. Saber que milhões de brasileiros pobres não possuem mais assistência médica. Dói muito saber que pessoas estão adoecendo e morrendo no Brasil profundo porque ninguém está nem aí para elas. É lamentável que as pessoas se preocupem apenas com suas vidas e só protestem quando são diretamente atingidas. Tolos! Ainda não aprenderam que seu bem-estar depende do bem-estar de todos. 

Não aprenderam que somos um organismo, que estamos, de certa forma, ligados e dependentes um do outro, que quanto mais investimos no todo, mais fortes e seguros ficaremos. Mas não! A ganância, o desejo de ser maior que o outro, de possuir riquezas e poder os cegaram e os transformaram em seres medíocres e nauseabundos.

Como não ficar deprimido com tamanha imbecilidade governamental.  Com não se revoltar diante de um governo que procura vender, por ninharia, poderosas estatais geradoras de riquezas? Estão abrindo mão de um tesouro por espelhinhos idiotas. Um empresário jamais venderia uma empresa com grande lucratividade por valor igual a um ano de faturamento dela própria. Seria insano, mas é o que estão fazendo com nossas estatais.

Alessandro Octaviani, Professor da Faculdade de Direito da USP e autor, com Irene Patrícia Nohara, do livro “Estatais”, da editora Revista dos Tribunais, em uma entrevista à TV Afiada do jornalista Paulo Henrique Amorin, demonstrou que as cinco maiores estatais, a Petrobrás, Eletrobrás, Caixa Econômica, Banco do Brasil e BNDES, em 2018 deram lucro consolidado de 70 bilhões de reais. No dia 23 de janeiro deste ano, o G1 divulgou que Paulo Guedes pretende arrecadar exatos 75 bilhões com a venda dessas estatais, praticamente o valor do lucro que as empresas tiveram em apenas um ano.

Estão nos roubando e nos colocando em condição de vassalagem, de dependência total do mercado estrangeiro. Um governo que se prostitui em troca de benefícios pessoais. Que tem como missão o entreguismo das nossas riquezas.

Muitos podem não enxergar a verdade por trás dos planos do governo, mas, certamente, já estão sentindo a atmosfera macambúzia que paira sobre o país. Claro que alguns dirão que essa é uma infeliz atmosfera trazida pelos ventos do governo PT. Infelizmente, quando descobrirem que estão delirando, será tarde para reverter tamanha desgraça.

Como não deprimir quando se ouve que um governador, em um helicóptero, atira, indiscriminadamente, contra negros e pobres e que depois da “caçada”, volta ao hotel de luxo para contar histórias de sua “gloriosa” aventura. O escroto não sabe que seu dever não é assassinar pobres e negros, mas desenvolver políticas públicas efetivas para mudar a realidade das periferias e gerar oportunidades para que os jovens não optem pelo crime para sobreviver.     

Como não deprimir quando se sabe que militares invadem universidades para intimidar e ameaçar alunos e professores? Que nas ruas, o exército e a polícia estão executando inocentes e atirando em famílias?

Porque tanto preconceito, tanto ódio? Porque ainda permitimos que Bolsonaro, seus filhos e seus asseclas continuem incitando ódio e violência contra pessoas que só desejam respeito e paz? Eles são responsáveis por essa onda de violência contra as minorias.

Qual a razão dessa religiosidade fundamentalista e extremista que não permite o convívio com a diversidade, pregada pelo governo Bolsonaro? Porque o desejo de eliminar pessoas, só porque são ou pensam diferente? Isso é doentio e desumano.

Como não deprimir quando se sabe que, apesar dos protestos e da indignação humana, os três poderes seguem banqueteando como reis tiranos e imundos?

Estão roubando nossa alegria, espoliando nossas riquezas e usurpando nosso trabalho. Triste mesmo, é saber que parte da população está apoiando tudo isso. É a falta que a filosofia e a sociologia fazem na vida de um povo, que em troca de suas riquezas, se contentam com os mesmos espelhos que encantaram os índios há 500 anos. 

Por Alvaro Santos
Foto: José Cruz/Agência Brasil

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