Foto: Flavio André de Souza

Assis: Das coisas que nos fazem falta

Viajar é uma daquelas coisas que me dá a sensação de liberdade, principalmente quando vou a algum lugar que ainda não conheço. Eu e minha família estivemos em Poços de Caldas, onde fui realizar uma cerimônia de casamento humanista. Poços de Caldas é a velha cidade acolhida nos braços da mãe Mantiqueira, a cidade das rosas, das águas sulfurosas com poder de cura, das belas praças e bosques de árvores centenárias, lugar onde a natureza se entrelaça, se funde e difunde à cultura de um povo afeiçoado e característico.

Há vida em suas praças. Nelas se dança serestas e bailaricos matinais, embalados por chorinhos, valsas e polcas, tocados pela banda municipal todos os finais de semana, desde 1914. Em suas calçadas caminha-se por horas sem cansar os olhos. É um lugar de encontros, de pessoas que se contemplam e se interagem na composição.  Há muito verde, sombreando ciclovias e pistas para corridas e caminhadas. O parque municipal é de pasmar. Lá tem quadras, pista de bicicross, de skate, mesas para jogos de dama e xadrez, parquinhos de madeira, campo de futebol, lago artificial, quiosques e aparelhos para ginástica, tudo isso emoldurado pelos canteiros de rosas, hortênsias e pinheiros.

Agora entendo porque Rubem Alves escreveu, referindo-se a Poços: “Eu nasci em Minas, lugar onde parece que não há mar”. Tornei-me também mineiro em apenas três dias. Acho que em razão ao que Andréa, minha amiga de lá, escreveu: “É preciso viver Minas para ser daqui”.    

Enquanto vivíamos Minas, pensávamos também na querida Assis, cidade deleitosa, de gente acolhedora e com boas histórias pra contar. Se pudéssemos, traríamos um pedacinho de Poços de Caldas como presente. Das coisas que nos faltam, que nos permitem viver a vida com mais prazer e qualidade, sem termos que pagar mais por isso. Acho que foi pensando nisso que Guimarães Rosa escreveu, “viver de graça é mais barato”.  

Assis não merece a descortesia de alguns filhos seus. Ela é generosa conosco, penso que devemos ser generosos com ela, também. Assis é o idoso sentado na cadeira triste, é a criança que brinca na rua em perigo, o atleta (profissional ou amador) que no descompasso da Walter Antônio Fontana (Rodobanha), faz seu parque imaginário.

Assis quer ser mais verde, mais natureza, quer ser sinônimo de bem estar. Não quer que derrubem suas árvores. São elas que a tornam mais bonita e inspiradora, e só elas podem devolver o ar fresco e diminuir os ruídos e a poluição. Assis quer mais parques, quer praças grandes, belas e bem cuidadas. Assis quer viver, e viver com qualidade.

Temos apenas o Buracão, um parque primoroso, porém único e insuficiente. Há outros lugares na cidade, gritando por intervenção. Suplicando por uma invasão de gente consciente e em busca de paz e qualidade de vida. Assis merece e quer outros parques e praças. Lugares propícios para a população respirar natureza, cultura e liberdade.

Parafraseando Liev Tolstói, por mais que algumas obras e atitudes públicas pareçam autênticas, impressionantes ou interessantes, não será coisa alguma se não despertar na sociedade aquela sensação muito peculiar de felicidade e comunhão com os outros.

Por Alvaro Santos
Foto: Flavio André de Souza
Foto: Flavio André de Souza

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