Crônica a uma manhã de sábado em Assis

Acordar cedo no sábado não é para todo mundo, alguns que trabalham no comércio, outros têm que trocar plantão em hospitais, outros simplesmente gostam de caminhar. É caminhar, o ato milenar da humanidade, que em tempos imemoriais levou o ser humano a se espalhar pelo mundo.

E vou lhes contar, como andava esse tal de Homo Erectus, ele saiu lá da Ásia e foi parar na Europa, saiu da África e veio parar aqui na América do Sul, cruzou terras, prados, montanhas, lagos, rios, e até mares. Incansável ele percorria de 30 a 50 km por dia, isso sem esses infalíveis tênis de última geração, descalços ou no máximo uma pele de algum animal abatido no meio dessa jornada.

Hoje em dia caminhamos pouco, no máximo até a padaria, isso se não tiver muitas sacolas para trazer na volta, senão lá está ele, o carro, a grande vedete dessa moderna “caminhada”. Perdemos esse habito tão salutar e porque não, divertido, pois, caminhando se observa muito, se enxerga mais que pelo estreito para-brisas do carro, olhamos quem cruza conosco nos olhos, e um bom dia ou boa tarde se torna inevitável. Suamos, rimos, sentimos algum desconforto nos pés, mas os pulmões, as costas, os músculos e principalmente, nosso colesterol agradecem!

Já ouvi histórias e conheci pessoas que lá pela década de 50 do século passado, migraram a pé do nordeste para o centro-oeste, jornada épica, similar a uma epopeia digna de Dante ou Camões, vários dias por caminhos de terra, enfrentando o frio das noites e o sol dos dias quentes, mas chegaram a seus destinos, fundaram cidades, formaram famílias. Uma loucura nos dias atuais, que muitos suam e cansam só de imaginar.

Eu fiquei por muitos anos sem caminhar, ia a todos os lugares de carro, Cuiabá, minha morada por 25 anos não era uma cidade muito propícia ao hábito de longas caminhadas, calor insuportável na casa dos 40 graus no verão e “brandos” 32 no inverno, lá usava a bicicleta (que em outra oportunidade conversamos sobre ela), as vezes me arriscava no sol inclemente, a pé, mas sempre voltava muito vermelho e com uma sede de se beber o rio Cuiabá num gole só! Nessa volta a Assis, minha terra natal, redescobri e retomei esse hábito, clima agradável, tudo é perto! Você sabia que a partir do centro da cidade, em 8 km alcança-se o fim da cidade em qualquer direção? Isso em caminhada normal é algo em torno de 1 hora e vinte minutos, é perto, é logo ali. Muitas vezes deixo o carro na garagem por dias a fio e me arrisco a pé pela cidade, banco, padaria, academia, ir ao Parque do Buracão só para ler ou continuar a caminhada lá dentro, no meio das árvores e pássaros.

Aos sábados acordo as 5 da matina (lembram dele lá no início do texto?), caminho distâncias maiores, 20, 25 até 30km, vou ao Cervinho ou ao Ecolago. Caminho com meus pensamentos, ouço música, sinto os cheiros, ouço os pássaros, saboreio o vento no rosto, vejo a cidade com outros olhos, converso com pessoas pelo caminho, sou abordado e me perguntam: – o que faz tão cedo aqui, quer carona? Sempre sorrio e digo que não, obrigado, pois, essa jornada é a pé, para meu prazer e minhas reflexões, as pessoas se espantam, algumas dizem que isso era como se fazia antigamente, e contam que sentem um misto de saudade e alívio por terem carro ou moto, mas há sempre o saudosismo na voz e no semblante dos mais velhos.

sim,há muito prazer nisso, fará bem a sua saúde física e mental, seu corpo irá lhe agradecer, sua mente irá se abrir a novas experiências,  seus sentidos irão se aguçar, sinta os cheiros do caminho, o prazer de olhar o céu, as árvores, o sol na sua pele, o vento no rosto e a liberdade de ir onde seus pés te levarem! E ainda poderá presenciar espetáculos da natureza como foi o amanhecer neste sábado 14/12!

Foto capturada por Flávio André durante a caminhada.
Por Flávio André de Souza

Comentários

    José Cezário M. Aschar

    ( - )

    Um texto leve, bonito e suave como um caminhar!

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