Discurso de posse do Bolsonaro: Eivado de ideologia e carente de conteúdo

O discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro não foi apenas o mais curto da história, foi também o mais preocupante e mais ideológico – pelo menos em tempos que se dizem democráticos.

Os quase 10 minutos de fala não passaram de uma coleção de tuítes temperada com doses de messianismo, como apontou a Folha de São Paulo. Não fugiu do tom que adotou durante a campanha, cuja essência das propostas e ideologia do candidato se espalhou por mêmes, tuítes e fakenews. As diretrizes do que será seu governo foi verbalizado, uma vez mais, com jargões pouco factíveis e ideais e metas que até hoje não explicou como efetivá-las democraticamente – ou como serão benéficas a todo povo brasileiro.

Mas o cerne de seu discurso foi claro, ainda que ancorado num embuste: vai perseguir ostensivamente todos que pensam diferente dele, sob a égide de uma missão messiânica de salvar o Brasil de “ideologias nefastas”. Defendendo com unhas e dentes sua própria ideologia, parece que o alvo do presidente será a Educação (que já é de baixo nível com liberdade de cátedra, imagine com censura!), o que se configura numa aproximação nunca antes vista de discursos fascistas desde os anos 1930-40, no Brasil. As liberdades individuais e constitucionais estão ameaçadas dentro deste discurso.

E o povo, contrário à discursos ideológicos, que aplaudiu sua fala, sequer tem o discernimento para perceber que não há discurso mais ideológico que o do novo presidente da República. Toda a fala de Bolsonaro é eivada em puro ideologismo, desde que apareceu como presidenciável, numa mistura tosca de ultraneoliberalismo com doses de xenofobia social. E para isso se vale das antiquadas – mas eficientes – estratégias discursivas de nazifascistas históricos. Sempre conclama motes que sensibilizam a população, pois toca em questões de família, pátria e religião. Ainda que, ao se comparar essas palavras de ordem com as propostas de Bolsonaro, fique claro que há descompasso gritante, a população se comove com o poder de palavras gatilho e reproduzem ideias sem sentido prático.

E, claro, para galgar sucesso, precisa criar inimigos e problemas imaginários para propor soluções simplistas e populistas, como a liberação de armas. Esta tática é mais do que carcomida entre as velhas raposas da política, mas parece que Bolsonaro a domina como ninguém. Para desviar a atenção do que realmente é sério e grave, inventa uma invasão ideológica comunista (como se no Brasil algum dia isso tivesse acontecido), ideologia de gênero, kit gay, relações externas ideologizadas, crise econômica nunca antes igual (sendo que existiram crises infinitamente piores) etc, sempre remetendo a Deus, família e pátria.

Estas táticas são muito bem explicadas pelo mais respeitado intelectual ainda vivo, o norte-americano Noam Chomsky. Para não tratar dos problemas reais da sociedade, inventam problemas ou grandes eventos e polêmicas para desviar o foco. No caso das escolas, por exemplo, ignorando os reais obstáculos de uma educação de qualidade, como baixos salários, má qualificação, estruturas destruídas, falta de investimento, inventam kit gay e ideologia de gênero para a população se preocupar com essas bobagens e dar suporte a políticas de censura da educação (algo que só ditaduras fazem). Para não valorizar políticas sociais, criam um inimigo imaginário socialista que tudo domina.

Para vender as riquezas do país a preço de banana, convencem o povo de que o Estado é pesado e ineficiente. Para atacar direitos sociais, criam, literalmente, uma crise econômica via parlamento, para espoliar a Previdência Social e os direitos trabalhistas e entregá-los de mãos beijadas à especulação financeira (ver meu artigo anterior).

Seu ministro da Educação anunciou, também no dia 1º de janeiro, que criará uma secretaria cívico-militar no MEC, para garantir uma educação conservadora para os estudantes brasileiros. Diz que precisa ser feito isso porque as escolas e universidades estão tomadas pelo discurso comunista – Óh céus, mais uma vez. Sempre falas generalistas, sem ter qualquer respaldo estatístico, dados factíveis, observáveis. Isso porque Bolsonaro disse que seria um governo para todos os brasileiros, independente de qualquer coisa. Tem algo que não encaixa aí. Se isso não é discurso ideológico, o que mais é?

Seu ministro da Defesa já anunciou que pretende reformar a carreira militar. Dentro de uma PEC de Teto de Gastos, vamos ver como farão isso. Afinal, os militares serão o esteio para garantir toda e qualquer atitude do governo, por mais absurda que seja. Inclusive uma possível Guerra contra Venezuela, Cuba e Nicarágua. Parece legal, até seus filhos começarem a morrer nos campos de batalha.

Seu ministro da economia anuncia aos quatro ventos que o Brasil está em liquidação. “Vamos privatizar tudo”. Que país sério entrega seus recursos naturais e empresas mais preciosos para estrangeiros? O que serão as Forças Armadas num país vendido? Segurança particular, paga pelo Estado, para garantir a soberania destas empresas multinacionais? Porque, depois de tudo entregue, qual soberania o exército defenderá? Há ideologia mais ultraneoliberal que esta?

Seu ministro das relações exteriores, assim como o presidente, fala que vai acabar com as relações externas ideologizadas. Para isso vai escantear o bloco que simboliza a independência dos países sul-americanos, o MERCOSUL. E minorou a importância dos BRICs, o bloco que mais tem potencial de fazer frente aos que dominam o planeta até hoje.

Para deixar de ser ideologizado pretende mudar a Embaixada brasileira de Israel para Jerusalém, o que vai causar grande conflito com os países árabes, que estão entre os maiores importadores de carnes e cereais nacionais. Critica a China abertamente (maior parceiro comercial do Brasil) – aguardem o chora-chora dos empresários e produtores a hora que perderem grande mercado. E aproxima-se dos EUA, que nunca olharam para o Brasil como país soberano. Há mais ideologia que isso?

O presidente está agora com a faixa na mão e continua sem ter algo substancial para dizer ao povo, a não ser devaneios persecutórios. Isso foi o que demonstrou seu discurso de posse e depois a fala ao povo, no parlatório. Bolsonaro cria inimigos imaginários porque não tem um programa de governo sensato, mas apenas ideias superficiais sobre o que exaustivamente dizia em campanha. Parece que o presidente continuará sua jornada, agora governando com jargões, mêmes e fakenews, para desviar o foco de seus afoitos e extasiados seguidores, enquanto conduz o Brasil para um futuro incerto, mas com sinais de obscurantismo.

Nunca o neoliberalismo deu certo em países do cone sul – vide a Argentina, na sua maior crise das últimas décadas. Aliás, nem mesmo os EUA são liberais, praticando, via Estado, políticas robustas de protecionismo econômico e subsídios pesados para o setor privado. São poucos os incautos que ainda acreditam em contos de fadas. E no tabuleiro da geopolítica, o soldadinho de chumbo é peça descartável.

Espero, com sinceridade, que o governo super-ideológico do novo presidente, de alguma maneira, faça o país se desenvolver e o povo sentir os benefícios disto; contudo, não acredito que isso vá acontecer. É como ligar os pontos, numa linha reta.

A vida vai piorar, mas a população estará muito ocupada com “inimigos imaginários” para perceber. É só olhar que a primeira medida do presidente foi garfar 8 reais do salário mínimo, aprovado pelo Congresso, mas isso não foi dito pela mídia. Pareceu até um bom ato do Presidente, pela maneira como foi anunciado, salteado com a história humilde da primeira dama.

Enquanto isso, que aprendamos que não há um ato sequer de um ser humano que não seja motivado por ideologia, seja ela qual for.

 Por Rodolfo Fiorucci

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