Fake News: A sombra maligna do “cidadão de bem”

As últimas eleições apresentaram aos brasileiros o fenômeno da Fake News, no entanto, esse fenômeno já existe na internet há um bom tempo.

Desde meus primeiros passos na internet, lembro-me de ver notícias falsas com frequência, muitas delas, mal-intencionadas, buscando ludibriar ou enganar as pessoas. No entanto, algumas eram apenas fruto de ingenuidade, falta de ceticismo e raciocínio lógico. Era comum noticias sobre remédios milagrosos, dietas mágicas, mortes de famosos, alterações inexistentes de leis e pensamentos atribuídos a pessoas famosas.

Não demorou muito para esse fenômeno começar a ter dimensão política, em pouco tempo os articuladores políticos perceberam que a internet seria um meio propicio para se divulgar conteúdos falsos ou distorcidos, com forte poder de penetração nas massas.

Desde então, começou a surgir notícias falsas sobre a vida pessoal de políticos. Um exemplo comum, é atribuir a alguns políticos, propriedade de imóveis e empresas que, de fato, nunca pertenceram a eles. Notícias acerca de atividades bizarras (não achei palavra melhor), como a construção de uma embaixada para o Estado Islâmico no Brasil ou a abertura de fronteiras para guerrilhas comunistas.

Teorias conspiratórias geram fake news como uma fábrica de carros produz motores. Lembram do clássico chip 666 (ou marca da besta), a qual seria implantada em todo ser humano até o ano de 2012, transferido para 2014 e depois para 2016? Das notícias de que a Pepsi Cola utilizava fetos abortados como adoçante? Esse caso rendeu um episódio épico no Youtube, em que o “guru” da extrema direita, Olavo de Carvalho, levou uma surra intelectual do biólogo e youtuber Paulo Nascimento, mas conhecido como Pirulla. A reação de Olavo de Carvalho, em resposta ao Pirulla, foi baixa e muito agressiva, atacando-o pela sua aparência e apelido.

A dimensão política das fake News teve na eleição presidencial de 2016, nos EUA, em que Donald Trump foi eleito presidente, seu grande marco inicial, seguido pela saída da Inglaterra da União Europeia e as eleições de 2018 no Brasil. Tudo indica que as fake news foram determinantes nas vitórias de Trump e Jair Bolsonaro. Um crime eleitoral que, pelo andar da carruagem, ganhará espaço no museu da impunidade.

No Brasil, casos como o do “Kit Gay”, deram a Jair Bolsonaro, grande vantagem eleitoral em relação a Fernando Haddad do PT. O apelido pejorativo, “Kit Gay”, dado pelos extremistas de direita, encaixou como luva num discurso que agradou muito aos conservadores e homofóbicos. Jair Bolsonaro apareceu em uma entrevista, na TV Globo, com um livro intitulado “Aparelho sexual e cia – Um guia inusitado para crianças descoladas” de Hélène Bruller, que na verdade, nunca foi distribuído nas escolas e nem sequer, se cogitou tal possibilidade, como pensam alguns.

O fato de aparecer em uma emissora como a Globo, legitimou sua denúncia de tal forma, que ficou impossível convencer seus eleitores de que aquilo se tratava de uma mentira arranjada para convencer eleitores a não votarem no candidato do PT. Nem mesmo a grande mídia conseguiu convencer os fiéis bolsonaristas arrebatados.

Para muitas pessoas, o “Kit Gay” era o que precisavam para justificar seu preconceito e ódio contra as minorias, em especial aos da comunidade LGBT.

É verdade que existiu um material cuja distribuição estava sendo estudada pelo MEC para os PROFESSORES, mas não era o livro que Jair Bolsonaro, desonestamente, levou para a entrevista. E pasmem os bolsonaristas, pois foi a então presidente Dilma Rousseff quem proibiu sua distribuição em 2011.

Um caso que precisa ser lembrado aqui, é o do empresário Luciano Hang, dono das lojas Havan, que foi denunciado pela Folha de São Paulo por usar sua empresa para financiar a indústria de fake news, para prejudicar o candidato do PT, Fernando Haddad. Um crime praticado por inúmeras empresas apoiadoras de Bolsonaro. Crimes difíceis de se levantar provas JURÍDICAS e que, levando em conta que se trata de empresas ricas e ligadas ao poder, provavelmente contam com uma forcinha de políticos e de pessoas ligadas ao judiciário.

Manuela D’Ávila, candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad, se tornou um alvo constante dos ataques por fake news. Nem mesmo Laura, sua filha, hoje com 3 anos, escapou do ódio gratuito provocado por elas.

Quando Laura tinha apenas 45 dias de vida, uma mulher, desiquilibrada, se aproximou de Manuela, que estava com a filha presa ao corpo por um sling, e deu dois tapas em Laura. O motivo foi uma notícia falsa em que dizia que Manuela teria comprado o enxoval de Laura em Miami.

A mulher insana, justificou seu ato de violência dizendo que Manuela deveria ter comprado as roupas de Laura em Cuba e não em Miami. “É verdade que quase fui linchada com ela dormindo, por uma mulher que incitou a multidão, é verdade que fui agredida muitas vezes na frente dela e de outras pessoas de minha família” disse Manuela em seu Facebook.

Dentre as inúmeras fake news, há áudios divulgados pelo WhatsApp, dizendo que, se Haddad ganhasse as eleições, “seus filhos seriam mandados para guerrilhas em Cuba” (controle suas risadas, pois do contrário não conseguirá terminar o texto), que o PT obrigaria pessoas a abrigar criminosos em casa, que planejava um golpe de estado para não sofrer mais impeachment, que haveria Bolsa Puta para garotas de programa, Bolsa Maconha e outras bizarrices.

O assustador dessas fake news, não é o conteúdo das postagens, mas o fato de milhares de brasileiros desavisados acreditarem nelas. Uma mostra acentuada do resultado da falta de educação e cultura do povo brasileiro.

Por fim, vemos que o fenômeno das “Fake News”, tomaram proporções perigosas e que o maior desafio, a partir de 2019, será a criação de medidas legais e duras para combater esse mal que destrói a vida de pessoas inocentes, impede a promoção de processos eleitorais justos e elege líderes desonestos e criminosos.

 
Por João Pedro Sussel

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.