Fobia social: Como vencer esta inimiga tão obstinada?

Glossofobia é o nome bonito para se referir a quem moooorre de medo de falar em público. Se você é uma vítima desse algoz abominável, sei exatamente como se sente. Basta uma pequena plateia se posicionar para ouvir o que você tem a dizer que logo a boca começa a secar, o rosto a ruborizar, as mãos tremerem, o coração palpitar, a respiração acelerar e o suor escorrer.

Muitos se sentem fracassados e com a autoestima em frangalhos. Seus projetos e sonhos ficam atravancados e a possibilidade de realiza-los, cada vez mais distante.

Quando estava no ensino fundamental, fui escolhido para recitar uma poesia no dia das mães, junto de outros colegas. O pavilhão estava cheio e mães entusiasmadas para aplaudirem seus filhos. Nos posicionamos ao palco para a apresentação do jogral. Eu era um dos últimos, o que não era um bom negócio, pois a cada fala de um dos meus colegas, era uma explosão de calor e suor que intensificava meu rubor. Quando chegou a minha vez, nem bem comecei e todos os sintomas que descrevi acima me possuíram e me roubaram a poesia da mente. Comecei a chorar e saí correndo do palco. Foi quando percebi que minha vida não seria nada fácil.

Não conseguia dizer uma palavra em público sem ficar ruborizado e com a voz embargada. E olha que esse público nem precisava ter mais que três pessoas. Lembro-me que costumava fugir de conhecidos ao encontra-los nas ruas, supermercados, shoppings ou em qualquer outro lugar. Era o pavor da exposição.

Eu era prisioneiro do medo, desenganado em relação aos meus sonhos, sentia-me um perdedor e tinha vergonha de mim mesmo.

Eu poderia ter me resignado e aceitado minha incapacidade para falar em público, mas, felizmente, minha coragem e determinação sobrepujou o medo. Sempre fui teimoso e obstinado. Sempre que aparecia uma oportunidade, lá estava eu, pronto para me apresentar em público, mesmo sabendo que isso poderia não terminar bem, Masoquista? Talvez!

Quando ainda era adolescente, aceitei o cargo de presidente do Interact Club e entrei para um grupo de teatro. Quando o grupo se dispersou, comecei a escrever e encenar minhas próprias peças, sozinho, um monólogo.

Minhas apresentações em Pitanga, minha cidade natal, no interior do Paraná, foram um sucesso. A partir daí, comecei a acreditar que eu poderia superar minhas limitações e derrotar meus fantasmas. O que eu não sabia, é que falar como personagem não tem nada a ver com o falar de si mesmo. O palco é um mundo de faz de conta, assim não há exposição pessoal.

Depois de alguns anos, agora sem o teatro, a fobia pareceu ter piorado, e a paixão por falar em público cresceu na mesma proporção.

Decidi buscar a cura na espiritualidade, foi quando comecei a frequentar a igreja Presbiteriana. Pastores, com quem dividi minhas aflições, me diziam que somente uma conversão genuína me traria a cura desejada e me tornar uma pessoa mais feliz.

Entreguei-me de corpo e alma à nova fé e fui batizado. Minha conversão foi sincera, eu realmente acreditei na fé evangélica. Os anos se passaram e o milagre não aconteceu, mas, em compensação, fiquei deslumbrado com o trabalho pastoral. Decidi, apesar da fobia, que queria ser um pregador e ajudar as pessoas.

Tornei-me missionário e dois anos depois entrei para a faculdade de teologia. Posteriormente fui ordenado pastor presbiteriano e me tornei um bom pregador. As duas igrejas que assumi, após minha ordenação, dobraram de tamanho com minhas pregações.

Pensava que era um tipo de milagre, sendo eu um fóbico social, pregar com desembaraço e tamanha destreza. Só depois me liguei que o púlpito era, para mim, como aquele palco de teatro, da minha adolescência. Falar de Deus e da bíblia era como apresentar uma peça anteriormente estudada e ensaiada.

Oito anos depois, por convicções filosóficas e institucionais, deixei a igreja e parti para outra jornada.

Hoje, trabalho com comunicação e realizo casamentos não religiosos, como celebrante humanista. Difícil ficar longe dos microfones rs.

Apesar de toda essa exposição pública, posso lhe garantir que não fui curado. Meu psiquiatra foi enfático ao dizer que não há cura para essa doença, que tenho que aceitar e aprender a conviver com ela. É o que tenho feito desde minha infância.

Minha fobia social pode até não ter cura, mas tenho vencido diversas batalhas contra seus “monstros”. Falar em público deixou de ser um tormento, aceito todos os convites sem titubear. Até me tornei palestrante na área comercial, dando treinamentos e consultorias. Sei que o medo marcará presença, sempre, mas sei também, quão mais forte sou hoje.

Aprendi que o campo de batalha (onde está nosso público) é o melhor lugar para estarmos. Só as experiências das batalhas podem nos dar maior conhecimento sobre nosso “inimigo” e sobre nós mesmos. Somente elas podem nos dar a força e a ousadia que precisamos para vencer o medo, continuar crescendo e realizando sonhos.

Ao invés de ficar procurando os 5 ou 10 passos para vencer o medo, levante-se, encare seu público, ligue o foda-se e comece a falar.

Por Alvaro Santos
Por Alvaro Santos

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