O antagonismo político: sobre acreditar em qualquer bobagem na internet e se sentir bem-informado

Na era da informação digital e das redes sociais há, de modo geral,  a possibilidade de se inventar, compartilhar e defender uma ideia qualquer. Dependendo do ambiente e dos grupos em que essa ideia for compartilhada, é possível que ela ganhe aficcionados que a levarão adiante, defendendo com empenho de que essa é a forma correta, bastante maniqueísta, de se pensar/posicionar.

Não é necessário conhecimento aprofundado em teorias conspiracionistas da internet, para que já se tenha ouvido falar em defensores, por exemplo, de movimentos como a “Terra Plana”. Esse grupo afirma que nosso planeta possui o formato de um disco e que vivemos em sua superfície. Opõe-se a todo o conhecimento científico que afirma, através de inúmeras provas cabais, de que a Terra é uma esfera. O que parece dar validade aos argumentos desse movimento é o fato de que muitas pessoas possuem essa mesma “impressão”. É claro que os membros desse grupo não possuem conhecimentos e evidências científicas para afirmar algo tão revolucionário, mas, no compartilhamento de informações entre eles, algumas hipóteses compartilhadas começam a tomar o estatuto de “verdade”. Da maneira em que o senso-comum trabalha em relação às evidências científicas, esses começam a crer em algo e, como toda crença, qualquer argumento que os refute não é debatido, mas combatido.

Talvez esse seja um movimento interessante que as redes sociais tenham proporcionado: uma ideia, por mais amalucada que seja, pode fazer sentido não somente para aquele que a publica, mas para outros que também compartilham das mesmas ideias e afetos que estão em jogo nessa ideia primeira.

Em momentos da nossa história em que alguém criava uma teoria infundada qualquer, esse indivíduo teria que discursar em praças e procurar maneiras de imprimí-la em folhetins de distribuição na região que vivesse. Muito provavelmente, a ideia dessa pessoa não teria grande circulação e angariaria poucos adeptos. Com o advento da internet, o ser com ideias destoantes da realidade encontrou seu espaço e, incrivelmente, seus seguidores. Não obstante a isso, existem inúmeros subgrupos na internet, além dos “terraplanistas”, que defendem ideias das mais variadas. Estão entre eles os “incels”, o “childfree movement”, entre outros. Deixarei ao leitor a curiosidade em descobrir o que defendem esses movimentos.

Ora, se é possível criar uma ideia totalmente estapafúrdia e lhe dar registro de verdade pelo simples fato de que ela é compartilhada por um grupo de pessoas, era apenas questão de tempo para que isso fosse utilizado na política, como forma de enaltecer o medíocre e subverter a opinião pública. Como disse Brecht: para a política, teorias conspiracionistas caem tão bem quanto água em um copo.

Essas ferramentas são um prato cheio para um tipo de eleitor já bastante conhecido no marketing político: o famigerado “antagonista”. Esse tipo de eleitor é aquele que não propõe nada, não defende qualquer posição política, não se interessa pelos espaços públicos, não se dedica a qualquer atividade de benfeitoria ao bem-comum. Costuma, no caráter lívido que só a ignorâcia consegue conceber, ter inúmeras opiniões, com fontes obscuras sobre praticamente tudo que diz respeito às ações efetivas do Estado. Ele, por estar sempre se colocando na discussão daquilo que nunca vivenciou, faz o papel de antagonista, e tem a auto-ilusão de estar contribuindo para um debate construtivo.

Não confundamos, nesta escrita, antagonista com opositor. Oposição é aquela que possui um posicionamento político específico. Age de maneira coerente aos seus princípios e, quando necessário, abre mão da oposição para um ganho social maior. O antagonista está mais preocupado com o seu contato imediato com as políticas de Estado e em como elas o beneficiam/prejudicam diretamente. Ao contrário da oposição, que possui um fundamento racional para manter a democracia de forma saudável, o antagonista é emotivo e se deixa levar pelo que é compartilhado em redes sociais e na grande mídia. Ele defenderá de forma passional qualquer coisa que corrobore com suas ideias e seus preconceitos. Se ele tiver um público, então, que o agracie com elogios e ajude a cimentar seus pressupostos, ele se sentirá realizado, uma vez que seu interesse sempre foi, no final das contas, o interesse pessoal em sobreposição ao interesse coletivo.

A cargo de exemplo, os EUA alternam seu governo entre Democratas e Republicanos desde a era Reagan. Em uma breve análise dos discursos de campanha, o candidato a todo momento trabalha com o descontentamento da população em relação à política atual, com frases como “Make America Great Again”, que fora utilizada tanto por Reagan quanto por Trump,  prometendo um futuro próspero, assim como era o passado, e livre da política/partido que está a cargo das funções administrativas no momento da eleição. Isso é um prato cheio para angariar votos daqueles que nunca se posicionam, mas estão sempre descontentes porque suas expectativas, que vão muito além do que a política institucional pode conceder, não foram atendidas. O antagonista é imediatista, quer que tudo seja resolvido com pressa. Por isso acredita em jargões dos mais pífios, e em políticas que visam resolver problemas sociais complexos com estratégias que qualquer criança poderia propor.

O Brasil não está distante da realidade estadunidense. Somos uma democracia bastante frágil. Em 90 anos de eleições diretas, apenas 4 presidentes foram eleitos e conseguiram terminar seus mandatos: Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Parece que sempre passamos por um período de entusiasmo com a possibilidade de mudança. Logo as expectativas imediatas não são satisfeitas, imensamente porque essas expecativas estão fundamentadas em um desconhecimento profundo de como funciona a máquina pública e de quais são as atribuições dos poderes federais, especialmente da função de presidente. Em um último momento, exige-se, novamente, a troca do que está no poder por aquele que expressa melhor o antagonismo ao atual. Esse modelo não é novo e não surgiu com as redes sociais, mas foi impulsionado e ressiginificado por elas. Qualquer Photoshop mal-feito pode se transformar em estratégia eficiente para angariar apoio dos mais viciosos.

Certa vez li em algum lugar, e peço desculpas por não dar créditos à frase por não lembrar de quem é, que dizia: “o brasileiro se assemelha ao indivíduo que tem uma barata em casa e não consegue matá-la. Por se sentir frustrado de não conseguir acabar com esse problema, ele taca fogo na casa”. Essa pode ser uma analogia de nossa história política. Presidentes não terminam seus mandatos, direitos básicos são cada vez mais extirpados, medidas que contribuem para o aumento da desigualdade social são implementadas. O brasileiro, em um fenômeno social altamente contraditório, pede, por exemplo, intervenção militar dentro de um movimento de greve, como aconteceu com os caminhoneiros em 2018. Tudo isso porque estão sempre lutando “contra a corrupção”, contra “privilégios”, contra um grupo determinado de pessoas que pensa diferente dos interesses de alguns poucos. Afirmam eles que o Brasil voltará a ser o que era, assim como no caso norte-americano, num saudosismo pueril a algo que nunca existiu. Nessa utopia delirante o antagonista, na metáfora de colocar fogo na casa, é o que traz o fósforo e assiste o arder das chamas. Ele não vai colocar fogo, nem tampouco apagá-lo. Ele irá apenas dizer que “queria mudança” e vai “ver no que vai dar” depois de tudo ter virado cinzas.

Para as próximas eleições a maior preocupação, talvez, seja de ficar atento às fontes das informações compartilhadas. Alguns aparatos para combater o combustível do antagonista que compartilhará qualquer coisa já foram criados, mas ainda são embrionários e atingem pouca gente. A crítica à política é necessária. A oposição a qualquer que seja o partido eleito é necessária para a manutenção da democracia. É necessário também que a crítica seja contundente e tenha alguma implicabilidade prática, para além da ilusão conspiracionista das redes sociais.

Há algo potencialmente perigoso nessa história. Partindo do princípio de que um delírio solitário é um sintoma, e de que um delírio coletivo é uma crença, não deixemos crenças e ideias absurdas serem transformadas em políticas de Estado, como, infelizmente, já estão acontecendo. Conversemos e tentemos esclarecer aos antagonistas que estão sempre ao nosso redor, de que a complexidade política, no seu estatuto pragmático, ético e administrativo, está muito além do sentimento explosivo de ódio e da indignação a “tudo que está aí”. E, caso não consigamos, a casa pegará fogo mais uma vez e, futuramente, teremos que trabalhar muito para reconstruí-la.

Bruno Seabra

Bruno Seabra Santos é Psicólogo e Cientista Social. Mestrando em Psicologia. Atua como Professor, Consultor de Empresas e Psicólogo Clínico.

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