O delírio da Ministra Damares Alves e a educação escolar domiciliar

O novo governo mal começou e Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos humanos, já se tornou uma das maiores piadas da política brasileira. A pastora neopentecostal, polêmica e extremamente controversa, coleciona um histórico de humor dramático, digno das histórias em quadrinhos do Chico Bento.

Uma das histórias mais hilárias é a de Jesus no pé da goiabeira. Uma boa piada para contar e rir num encontro com amigos, mas, infelizmente, torna-se trágica quando pensamos que a história é real e de alguém que ocupa um ministério importante no governo.

Uma grande parcela de evangélicos e católicos ultraconservadores, dão sustentação aos seus devaneios e atitudes. Estão, literalmente, batendo palma pra maluco dançar. Damares leva tão a sério suas experiências transcendentes que, na condução de suas pautas, chega a substituir as fundamentações científicas pelos delírios de suas catarses metafísicas.

Um exemplo é a MP da educação escolar domiciliar, conhecida como homeschooling. Damares quer entregar aos pais o poder sobre o aprendizado de seus filhos sem nenhuma estrutura governamental. O MEC, sequer, terá autonomia no processo, nem sobre os materiais e conteúdo. Os materiais serão escolhidos pelos pais e não terão nenhum subsídio do governo. Com essa MP, os pais poderão manter seus filhos fora da escola e ainda, serão eles os detentores dessa autonomia.

A verdade é que o novo governo, que não tem um bom relacionamento com a educação e a cultura, está tão obcecado em expurgar a esquerda do país, que chega a acreditar que as instituições educacionais estão dominadas por “guerrilheiros comunistas”.    

O medo é tão pavoroso e a incompetência excede tanto o nível aceitável, que a única coisa que lhe interessa de fato, é dar direito aos pais de “protegerem” seus filhos de se tornarem pequenos “Che Guevaras”. Quanto à estrutura pedagógica e às grades curriculares, bem, isso não é importante para o governo. A prioridade é livrar as crianças das mãos do “diabo comunista”.

Damares adora dizer que isso é comum em outros países, mas nada sabe sobre suas estruturas e contexto. Afirma que pais, que dedicarem de 2 a 3 horas por dia, para ensinar os filhos, estarão oferecendo mais conteúdo que a escola em 4 ou 5 horas de aula.

Como ministra da mulher, família e direitos humanos, deveria saber que, segundo o IBGE, mais da metade dos brasileiros, sequer concluiu o ensino fundamental. A outra metade está cheia de analfabetos funcionais e pessoas que não possuem o mínimo de didática e paciência para ensinar seus filhos por tanto tempo assim. Podem até se animar no início, mas logo verão que o cansaço físico e mental das atividades diárias do trabalho, não lhes dará fôlego para manter a tenacidade do ensino domiciliar.

Usar países nórdicos para justificar a implantação de um programa de escola domiciliar, como estão fazendo, é, no mínimo, falta de honestidade intelectual. Os nórdicos, além de serem considerados os povos mais honestos do mundo, possuem uma taxa de alfabetização de praticamente 100%.

Pais nórdicos, em sua grande maioria, devido a boa formação escolar, diferente do Brasil, estão mais preparados para ensinar seus filhos. Até porque, não precisam se preocupar com suas necessidades básicas, pois tudo funciona perfeitamente e ninguém fica desprovido de recursos básicos.

O pedantismo político de quem pouco sabe sobre as diferenças da realidade social, econômica e cultural de outros países com Brasil, produzirá um angu de caroço que só um futuro governo, mais competente e inteligente, poderá consertar.

Sobre a importância da sociabilização das crianças, Damares, gerundiando na entrevista para o G1, alegou que há outras formas de sociabilização, como por exemplo, os vizinhos, a igreja e os cursos extracurriculares, como o de inglês, por exemplo.

A ministra, embusteira e mãe de uma das maiores fake news das eleições de 2018, o famigerado “Kit Gay”, parece morar numa pequena e pacata cidade do interior dos anos 70, em que as crianças podiam sair às ruas para brincar e sociabilizar. Igrejas e playgrounds não são os melhores lugares para isso, pois seus pais estão o tempo todo juntos, cuidando para que não haja acidentes, aborrecimentos e desentendimentos com outras crianças. Uma verdadeira redoma de proteção que impossibilita o desenvolvimento social e amadurecimento da criança.

Questionada sobre como se daria a fiscalização da homeschooling, Damares disse que a proposta aponta o conselho tutelar como órgão fiscalizador. Além de ser uma instituição sobrecarregada, que conta com apenas 5 conselheiros, o órgão sequer exige escolaridade de nível superior, sem contar que a grande maioria desses conselheiros não possuem competência para avaliar se um aluno está ou não, recebendo os ensinamentos adequadamente.

Sugiro que o governo resolva, primeiramente, algumas questões sociais fundamentais. Melhorar a distribuição de renda, acabar, de fato, com a corrupção e as mordomias do poder público e oferecer serviços de educação, saúde, segurança e seguridade social à altura das arrecadações bilionárias que recebe através dos nossos impostos.

Por Alvaro Santos
Foto: Valter Campanato | Agência Brasil

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