O desabafo de uma mãe sobre trabalho infantil

Me deparei com um texto de uma mãe indignada com a comparação que as pessoas estão fazendo, usando a experiência de sua filha de 4 anos, para defenderem o trabalho infantil. Achei apropriado compartilhar essa experiência e a bela leitura que essa mãe fez da situação. Segue na íntegra.

Hoje eu tive uma discussão que me tirou dos eixos de tanta raiva. Uma pessoa me disse que era a favor do trabalho infantil e usou como exemplo a minha filha (de 4 anos) e sua vendinha de brigadeiro para dizer que aquilo ali era super saudável.

Minha filha tem 4 anos. Tem moradia fixa e segura. Estuda em uma boa escola. Tem acesso à lazer, cultura e saúde. Faz várias atividades extracurriculares e é branca.

Um dia, ela me pediu para comprar uma sapatilha de brilhos para dançar na escola de dança. Eu neguei, pois havia comprado uma normal há pouco tempo. Sugeri então que ela fizesse uma venda de brinquedos e roupas para ter o valor (R$32,00) da tal sapatilha, mas tive depois a ideia dela vender brigadeiros na feirinha do meu bairro. Eu comprei, então, 4 latas de leite condensado, chocolate em pó, manteiga, forminhas, bandeja e mandei imprimir essa arte do porta-retratos. Gastei, obviamente, mais que o valor da sapatilha.

Ao chegar na feirinha, as pessoas davam dinheiro a mais para minha filha. Todos diziam o quanto ela era linda. Em menos de 30 minutos ela já tinha o valor da sapatilha. Foi uma lição bacana de esforço, mas também acabei ensinando sem querer para minha filha que uma criança branca e de classe média tem tudo de uma forma muito mais fácil.

Mas essa não é a face do trabalho infantil no Brasil. O trabalho infantil não é minha filha que vende brigadeiro. Não é a amiguinha dela, atriz, que ganha um cachê legal a cada comercial que faz. Não é o outro amiguinho que acabou de filmar A turma da Mônica. Essas são as crianças que tem um talento, óbvio, mas também têm investimento e muito suor dos pais na criação delas. Se qualquer uma dessas crianças parar de trabalhar hoje, elas ainda terão um prato de comida na mesa, uma casa confortável e todos os privilégios das crianças de classe média.

A verdadeira face do trabalho infantil é o menino que precisa meter a mão em fornos de carvão para alimentar sua família. É a menina de 7 anos que vai para beira da estrada se prostituir para ter o que comer. É o pré-adolescente que não pode ir para a escola porque precisa vender bala no sinal. São muitas as faces, que estão nessa vida por falta de estrutura social e políticas públicas. São as faces das crianças brasileiras que estão querendo relativizar o sofrimento usando minha filha como base.

O trabalho infantil a ser combatido não é o de uma menininha com roupa bonita vendendo brigadeiro. Não seja hipócrita.

Uma edição rápida: a lei que proíbe o trabalho infantil e regulamenta as exceções existe para impedir que crianças trabalhem de forma exaustiva e que prejudique sua infância. Sim, eu concordo que até as crianças da mídia têm sua infância prejudicada, mas isso é para outro papo.

A questão é que quando um PRESIDENTE fala que ele trabalhou aos 11 anos e sua irmã aos 7 na fazenda de sua família e isso não prejudicou sua vida, um fazendeiro pode usar desse argumento para catar o filho do seu funcionário para trabalhar, pagar menos (porque a criança recebe menos. Sempre.) e ter mais um burro de carga na fazenda.

Todo trabalho, em qualquer fase da vida, atrapalha nos estudos. Todo. Se você é um adulto que trabalha e estuda sabe que tem dia que você fica cansado e falta a aula. Imagine uma criança.

O problema de legitimarmos o esforço sobrenatural de uma criança para sobreviver e romantizar isso com o “eu fiz e sou uma pessoa melhor por isso” é que vai ter gente ruim no mundo se apropriando disso para explorar crianças.

Por Natália Guimarães

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.