O Homenzinho médio das nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio

“O Homenzinho médio das nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio”. Esta frase é parte de um discurso feito na ONU por um homem admirável e nada convencional, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. Suas palavras me inspiraram a escrever este artigo.

Se me perguntarem hoje o que é mais preciso para mim, eu diria que é o ócio contemplativo e criativo. Para milhares de humanos “míopes”, isso é preguiça. Não sabem que este é o tempo onde grandes homens e mulheres se descobriram como geniais e mudaram o mundo; este é o tempo em que descobrimos e vivemos um grande amor; é o tempo em que embalamos, amamos e recebemos o amor dos nossos filhos; que construímos verdadeiras amizades; contemplamos a vida e apascentamos nossa mente.

Pergunte a um moribundo sobre seus dias felizes e, certamente, não ouvirá dele sobre suas conversas com o gerente do banco, não o ouvirá gabar-se dos carrões, roupas, casas e outros bens que acumulou ao longo dos anos, mas, possivelmente, o ouvirá falar dos raros e singelos momentos que passou com a família e os amigos. Dos momentos que riram, choraram e se divertiram juntos. O ouvirá falar, principalmente, dos momentos de ócio que desperdiçou em troca de uma exaustante busca pelos bens materiais.

O que nos leva lançarmos mão desses inestimável bem em troca de dias e dias de ansiedade e estresse? A ganância? O poder? O medo de não ser valorizado ou de ficar pobre? A necessidade de ser admirado e desejado por todos?

Somos educados para trabalhar, ganhar dinheiro e alcançar ascensão social. Uma pessoa pode fazer o que ama e a faz feliz de fato, mas será fracassada se não alcançar riquezas materiais. A sociedade valoriza apenas o que você compra, não o que você é. Isso, tem sido o motivo de termos uma humanidade doente e infeliz.  

A humanidade parece não acreditar na morte, mesmo convivendo com ela o tempo todo. Posterga-se a vida para vive-la quando não há mais tempo ou forças para isso. Quando as pessoas mais importantes da vida já não estão mais por perto.

Trabalhar exaustivamente apenas para acumular bens materiais, é como viver eu uma senzala de luxo. Isso só lhe dá uma falsa sensação de liberdade. Acumular para ter uma vida de rei ou rainha após a aposentadoria é insano, pois nesse dia, estará velho e cansado para aproveitar os últimos dias. Os filhos já estarão grandes e ocupados demais. Os amigos, que ainda estiverem vivos, poderão estar distantes e igualmente fragilizados pelo tempo. Os sonhos da juventude, tão velhos quanto.

Mais vale investir na ociosidade do tempo, na companhia da família e amigos que amamos, que investir numa vida consumista que atrai, apenas, pessoas interessadas no que sua companhia, dinheiro ou poder poderão lhes proporcionar para alcançar o mesmo sucesso. Apenas pessoas interesseiras e falsas.

Recentemente, o humorista Whindersson Nunes declarou que apesar de uma vida com sucesso financeiro e fama se sente infeliz e com pensamentos suicida. Suas palavras corroboram com meu pensamento sobre o assunto.

“Eu queria conversar com meus fãs das antigas, com as pessoas que por algum motivo gostam de mim, sobre o que está acontecendo comigo, eu tive que tomar muita coragem para vir aqui. Mas eu apesar de tudo de bom que vem acontecendo comigo, com tudo que já conquistei, eu me sinto há alguns anos triste“, começou Nunes. “Eu sinto um angústia todos os dias, todos os dias, algumas risadas, algumas brincadeiras e depois lá estou eu de novo com esse sentimento ruim. Me sinto mal por não poder me ajudar, mesmo eu às vezes ajudando alguém, eu procuro ajuda nos amigos, na família, mas eu me sinto tão triste, tão triste. Eu vivo rodeado de abutres, urubus, cada um querendo a sua fatia do bolo, e ver tantas pessoas ruins me deixa deslocado, me questionando se eu quebro errado em tentar nunca decepcionar.”

Não proponho o abandono do trabalho, dos sonhos profissionais ou dos desejos materiais, apenas que sejamos sábios o suficiente para entender que nosso trabalho e nossos bens, possuem o propósito de nos servir e não nos escravizar. Que nosso trabalho não nos roube o tempo ou as pessoas que tanto amamos e nos fazem bem de verdade.

É importante sentir o pulsar da vida ao nosso redor. Saboreá-la e não tragá-la sofregamente. Como bem disse Charles Chaplin: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”.

Por Alvaro Santos

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.