O que esperar do governo Bolsonaro na educação?

É notório que o governo Bolsonaro tem seu início em meio a inúmeras polêmicas, é notório, também, que uma preocupação recorrente durante as campanhas (na verdade uma preocupação recorrente desde sempre) era com relação a educação.

Embora exista divergências quanto a natureza, etiologia e soluções, parece ser consenso que vivemos uma crise educacional, a primeira reflexão que deve ser feita é acerca do próprio significado de crise.

Em um artigo muito interessante publicado em 2017 na revista científica Educação e Pesquisa o professor José Sergio Fonseca de Carvalho recupera nos escritos de Hannah Arendt uma discussão acerca do significado de crise, segundo Arendt, uma crise é uma situação onde as respostas consolidadas na tradição não servem para os problemas atuais, ou seja, crise não tem o sentido de decadência e sim o sentido de necessidade de mudança, de novas respostas para novos problemas.

Dessa maneira, o que vivemos e deverá ser encarado por esse governo é uma situação onde a prática educacional não condiz com a realidade e os problemas atuais. Sendo assim, será inócuo repetir as mesmas práticas, é como a velha frase atribuída a Einstein: “insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar um resultado diferente”.

Vamos analisar então as pautas levantadas pela chapa de Bolsonaro ao longo da campanha e após sua posse. Ao procurar as declarações de Bolsonaro e sua equipe, vê-se de cara um total desconhecimento com relação aos problemas reais na educação, pouco ou nada falam a respeito dos salários dos professores, da falta de professores de algumas disciplinas em certas regiões, da obsolescência dos currículos, da perpetuação de um sistema educacional arcaico e tecnicista, do mar de ausência de sentido que inunda as salas de aulas (metáfora usada pelo pesquisador Michael Matthews em seu artigo “Historia, filosofia e ensino de ciências: a tendência atual de reaproximação”) e etc.

Poderíamos citar dezenas de problemas reais documentados em artigos científicos da área, no entanto, faremos uma análise do que foi dito ao invés de nos prolongar acerca do que deveria ter sido dito. Um ponto no qual Bolsonaro insistiu ao longo da campanha é em relação a uma suposta doutrinação Marxista Cultural nas escolas a qual estaria influenciando estudantes ao uso de drogas, a homossexualidade, ao feminismo entre outros.

Ora, se tal doutrinação fosse tão eficiente o resultado das eleições seria outro, a aceitação da sociedade com relação a orientação sexual dos indivíduos seria outra, as desigualdades de gênero não estariam tão explicitamente dadas. É insano supor que uma conspiração doutrinaria de tamanhas proporções seja verossímil em um cenário onde o vencedor das eleições foi um sujeito que nadou contra a corrente, ou essa doutrinação não existe ou os doutrinadores são muito incompetentes.

Outra acusação do nosso presidente é a tal “Ideologia de Gênero”, em primeiro lugar, esse termo é obscurantista e pseudocientífico, visto que não é utilizado na pesquisa acadêmica especializada, é apenas um termo criado por movimentos conservadores americanos a fim de desmerecer os Estudos de Gênero utilizando o termo “Ideologia”, que recebe conotação negativa. Os Estudos de Gênero são e devem ser criticados em ambiente acadêmico, onde os pesquisadores com base em resultados de investigações científicas debatem ideias. Não é que o debate seja inacessível para o cidadão externo ao meio científico, apenas é uma questão de se tomar cuidado e procurar qualificar o debate público a respeito de gênero, exatamente o contrário do que vem sendo feito por esse novo governo.

O último ponto que pareceu relevante de ser comentado é a hipótese do ensino médio a distância, a qual chega a ser risível. É exatamente no contato com o outro ou com os outros que surgem situações de aprendizagem. Que interação social é promovida por meio de cursos à distância? Novamente, em nenhum momento estamos afirmando que não é possível aprender algum conteúdo sozinho lendo um livro ou assistindo uma vídeo-aula. O ponto é que a troca de experiências no ambiente escolar é muito importante para uma boa formação humanista, para socialização e também para o aprendizado. Vale uma ressalva que para regiões onde o estado não chega e faltam escolas, uma formação a distância é uma opção a ser levada em conta, no entanto, exige uma estrutura de inclusão digital para levar acesso à internet e computadores a regiões onde faltam escolas, o que me parece no mínimo estranho.

Mas qual a solução para os problemas apontados na campanha do atual governo? O ensino a distância já discutido seria uma solução para um problema o qual nem ao menos fica claro. Parece ser de ordem financeira. Há uma ideia de que seria mais barato, sem nenhuma preocupação com a qualidade.

Para o problema da “doutrinação” a solução se chama Escola sem Partido, um projeto de lei que já tramita a algum tempo na câmara o qual prega o ingênuo discurso da neutralidade política em sala de aula, mas tem a maquiavélica intensão de permitir que bobagens pseudocientíficas e conspiracionistas entrem nos currículos escolares.

É, sim, um discurso ingênuo de neutralidade, pois espera que professores apresentem os vários lados de uma discussão como se um indivíduo fosse capaz de estudar a fundo um mesmo fenômeno sob várias perspectivas e apresentasse cada uma com mesmo entusiasmo. A intensão é maquiavélica pois permitirá que professores apresentem pseudociências em pé de igualdade com aquilo que é cientificamente consolidado, como por exemplo, negar o aquecimento global, afirmar que vacinas causam autismos, negar a ida do homem à lua, afirmar que o Nazismo foi um movimento político de esquerda e pasmem, ensinar o “modelo” da terra plana.

Até mesmo um dos “gurus intelectuais” de nosso presidente, o escritor e ex-astrólogo Olavo de Carvalho já se posicionou contra o projeto afirmando que deveria ser “Escola sem Censura” e, aí sim, poderíamos ter uma proposta interessante, mas que precisaria ser estudada incansavelmente pelos pesquisadores da área.

Enfim, o que esperar do governo Bolsonaro em relação a educação? Nada de bom, por enquanto. O governo demonstra que chega sem o mínimo de conhecimento científico acerca dos problemas reais que nossa educação enfrenta.

Por João Pedro Sussel

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