A dor de um olhar estranho

Algum dia, em algum lugar, você já se sentiu incomodado com os olhares das pessoas sobre você? Aqueles olhares estranhos e nem um pouco amistosos? Qual foi a sensação? Provavelmente de um grande desconforto e um sentimento de não pertencimento, de desprezo e rejeição.  É quando se descobre que um olhar pode nos ferir.  

Tome essa experiência e multiplique infinitamente. Infinito é o número de vezes que um excluído passa por tal humilhação. Quando falo excluído, falo dos homossexuais, dos negros, das mulheres, dos seguidores de Oxum e Ogum, também dos seguidores de ninguém, os ateus.

Quando se protesta, chamam de mimimi, já eu, prefiro chamar de voz plangente, o suspiro da dor.

Os excluídos são proibidos de existir diante do olhar dos “sublimes”. Os homossexuais precisam reprimir sua natureza e conter seus movimentos e trejeitos, as mulheres devem aceitar sua posição suplementar. Os negros e pobres devem ser subservientes e complacentes com os brancos e ricos.

Os ateus e seguidores de outras religiões, devem se submeter à fé da maioria e guardar suas opiniões e pensamentos, apenas para si mesmos, enquanto cristãos promovem proselitismo mundo à fora.

Precisam aceitar a árdua incumbência de participar das orações e ritos majoritários, tanto em lugares privados quanto em públicos, para não serem repreendidos ou pior, agredidos. Mesmo vivendo num Estado laico.

Tal condescendência existe para evitar os olhares estranhos e rudes. Para evitar o repúdio que dói e a opressão que tortura e mata. Muitos abdicam de si mesmos para não acordarem, um dia, totalmente às margens da sociedade e das oportunidades.  

Mas o que é pior? Habitar à sombra dos “sublimes”, gastando a vida em busca de aprovação e aceitação? Viver como pedintes miseráveis? Ou encarar a dor do preconceito e da rejeição pela defesa da liberdade, das ideias e de sua própria natureza?

É certo que as pessoas deveriam ver que o mundo é feito de tantas coisas diversas e singulares, que ninguém pode impedir a natureza de ser como ela é, e que tais tentativas são desumanas, ofensivas e hostis. Mas infelizmente a maioria não vê dessa forma.

Os líderes religiosos que deveriam pregar o amor e respeito, com poucas exceções, preferem promover o preconceito e incitar o ódio. É evidente que não aprenderam nada com o Cristo a quem dizem seguir.

Já os governantes, que deveriam assumir de vez suas responsabilidades na proteção e desenvolvimento dessa minoria tão marginalizada e aviltada, estão ocupados com o poder e a corrupção e preferem aprovar leis que cerceiam ainda mais seus direitos fundamentais.  

De uma coisa eu sei, a subserviência ao opressor os colocariam em um verdadeiro estado de miséria humana e covardia. Também, que gastar toda uma existência vivendo uma vida estranha à sua própria essência e pensamentos, somente para evitar os olhares e comentários toscos e agressivos nas festas de família, em reuniões sociais, salas de aula e churrascos com amigos, não me parece uma vida que valha a pena viver.

Então, meus amigos oprimidos, a palavra hoje é resistência e, parafraseando o evangelista Tiago, resisti aos opressores e eles fugirão de vós.       

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