Desconforto gerado por ausência de vereadores em homenagem a cidadão negro em Assis/SP, justifica a frase de Caetano Veloso, “Precisa haver a segunda abolição”.

Há muitos anos à Câmara de Assis homenageia pessoas que se destacam em ações sociais. Neste ano o Diploma Zumbi dos Palmares foi concedido a Claudomiro Souza, co-fundador do Instituto Negro-Zimbauê.

O Instituto do Negro-Zimbauê têm 14 anos e grande engajamento nas questões raciais, pela igualdade, cultura e todo universo relacionado aos afrodescentes em Assis. O resultado de tal reconhecimento deve-se muito ao assistente social Claudomiro Souza, que após quase ter morrido aos 9 anos de idade, foi tocado pela vocação religiosa. Porém, quando ainda cursava filosofia no seminário Diocesano São José, percebeu que poderia contribuir mais com a sociedade se estivesse na condição de “Irmão”, denominação usada para os que atuam fora do Seminário. Foi assim que aceitou o convite da Caritas Diocesana, coordenando a Casa Nova Vida, clínica para recuperação de pessoas viciadas em álcool e em drogas. Após, trabalhou em favelas e em projetos sociais variados com populações carentes.

Seu objetivo maior era lutar pela causa negra. Então, começou a lecionar ensino religioso, no Colégio Santa Maria da Ressureição, concomitante a uma militância no movimento negro. O que em 2001 culminou com a realização da primeira missa Afro na cidade, celebrada pelo padre Edivaldo.  Posteriormente conheceu uma médica negra, Dra. Kátia, que tinha o mesmo objetivo de luta social. Os dois fundaram o Instituto Negro-Zimbauê e chamaram o povo negro de Assis para participar. Sucesso até hoje, o Instituto desenvolve atividades culturais e cursos profissionalizantes, sem fins lucrativos, formando diversos profissionais para o mercado de trabalho. O que certamente já justificaria a homenagem.

Por que contei/resumi toda essa história? Primeiro porque a sociedade precisa saber quem são os homenageados pelo poder público. Afinal, é com recursos de nossos impostos que o Estado, nas três esferas da administração pública (municipal, estadual e federal) desenvolve suas ações. Portanto, a sociedade tem que estar de acordo com tais escolhas. Do contrário, continua-se enaltecendo “heróis de nada”, enquanto verdadeiros heróis lutam cotidianamente pela igualdade e justiça para todos; Segundo, porque enquanto à tecnocracia cresce e torna a vida um pouco mais difícil para empresários e maioria da população trabalhadora, há pessoas na sociedade fazendo um trabalho de inclusão, respeito e garantia de dignidade aos mais vulneráveis, simplesmente porque acreditam que a educação, a solidariedade e o amor são os únicos caminhos para construção de uma sociedade melhor.

O inusitado na solenidade de entrega do Diploma de Mérito Zumbi dos Palmares a Claudomiro Souza, dia 06/12/2018, que também homenageava o Instituto Negro-Zimbauê, foi a ausência de Vereadores na Câmara Municipal de Assis, inclusive o vereador Timba (DEM), que também é negro.

Por que não foram? Por quê? A sessão solene foi presidida por Francisco de Assis, único vereador presente. O desconforto dos familiares e cidadãos assisenses que estavam no plenário foi compensado pelo discurso crítico da Dra. Monica Silva, atual presidente do Instituo Negro-Zimbauê, do Advogado do Instituto, Dr. Sérgio Frederico, e por último, do homenageado, Clodomiro Souza, que fez duras críticas à demagogia política sobre a questão dos negros, que na hora da ação nada é efetivado. Postura que só reforça o preconceito e discriminação social.

É constante a prática de discriminação por cor de pele. E isso é muito ignorante. Ou seja, ignora-se que cor de pele nada diz sobre cultura, ancestralidades, história. Haja vista a grande contribuição de negros na formação de diversas nações, principalmente à brasileira, com maior concentração de negros depois do continente Africano. Contribuições desde à literatura, música, danças e tantas manifestações artísticas, além dos cultos religiosos, que fazem do Brasil o país mais sincrético do mundo.

Mas, é mesmo na política que tal discriminação tem tido maior visibilidade. Reforçam tal leitura o assassinato da vereadora carioca Mariele Franco, há 9 meses sem nenhuma ação concreta. Poderia enumerar outros, mas cito o mais recente. Dia 18/09, na Casa São Paulo, na cerimônia de diplomação de parlamentares, um dos integrantes da bancada coletiva do PSOL/SP, Jesus dos Santos, encabeçada pela deputada estadual eleita Mônica Seixas, foi impedido de subir ao palco para posar na foto oficial junto com os demais integrantes do Partido, sofrendo grave humilhação.

Jesus dos Santos foi impedido por seguranças, puxado e retirado agressivamente do palco. Ainda, foi intimidado pelo também deputado eleito Alexandre Frota (PSL-SP), que, segundo denúncia do agredido, teria também lhe dado uma joelhada. E quando questionado, por uma repórter sobre o excesso de sua atitude, disse: “Quero que vá para a casa do c……” (não dá para escrever tal palavrão aqui).

É mais uma ação discriminatória, com claro exercício de poder de quem ainda não o assumiu, mas já se sente legitimado para exercê-lo, graças à cristalização do discurso de ódio que se mantém na sociedade brasileira, mesmo após o encerramento do processo eleitoral, com vitória do campo conservador.

Até quando a sociedade assistirá tais episódios sem nada dizer? Não tínhamos que nos mobilizar em redes sociais para exigir que o Poder Público cumpra com seu papel? Por que não foram, os vereadores assisenses, na homenagem de Claudomiro Souza? Seria porque tal diplomação “Zumbi dos Palmares” envolve negros? Caso sim, a sociedade assisense precisa fazer este debate. Aliás, prêmios de reconhecimento deveriam ser entregues em sessões ordinárias, pois o impacto social das ações de homenageados são, na maioria das vezes, muito maior que ações de um mandato inteiro de vereadores eleitos.

“É preciso estar atento e forte” como disse Chico Pinheiro (@chico_pinheiro) no Twitter, comentando a entrevista de Caetano Veloso à Tata Werneck, no programa Lady Night. É também de Caetano a fala, no mesmo programa, que diz: “A distribuição de renda no Brasil é uma tragédia, é a doença da desigualdade. Vem da escravidão e precisa haver a segunda abolição”

VÍDEO – “Brasil precisa de uma segunda abolição”, diz Caetano no programa de Tatá Werneck

Por enquanto é isso. Há muita luta pela frente. É preciso lutar pela igualdade. Não há como crescer com tanta disparidade social, que atinge principalmente a população negra. Esta luta começa nos micro espaços, nas empresas, nas cidades, para atingirmos o país inteiro.

 
Por Inocência Manoel

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