Só encontra significado quem vive plenamente 

Longe de mim, bancar o sabichão e sair por aí dizendo o que todo mundo tem que fazer para ser feliz. Só quero dividir meus pensamentos com aqueles que pensam como eu.

Certo domingo, saí com alguns amigos para pedalar numa trilha da qual o percurso era de quase 50km. Em determinado momento do passeio paramos para arrumar a bicicleta de um dos companheiros. Enquanto bebia água e comia uma barrinha de cereal para repor a energia, fiquei observando meus novos amigos de pedalada. Aquela peculiar cena me remeteu à infância, a uma época em que, para ser feliz, só precisávamos de uma bicicleta e bons amigos. O que vinha em seguida era uma grande aventura e muita diversão.   

Infelizmente o tempo passa e os valores vão mudando com ele. Hoje, logrados por um ideal construído por adultos ambiciosos, somos induzidos a passar o resto das nossas vidas numa busca insaciável por dinheiro e reconhecimento social, na maioria das vezes para impressionar pessoas que em nada se importam conosco e outras que sequer conhecemos ou gostamos.

Passamos pela vida dissimulando e negando tais sentimentos. Acreditamos mesmo que estamos no caminho certo, no entanto, intuímos que coisa boa não é. Não podemos esconder a verdade dentro de nós, a consciência latente que tenta nos salvar dos conceitos fúteis e da ideia de que só teremos o respeito de todos quando estivermos acima de todos. Acredito que há um alerta instintivo em cada um de nós, dizendo pare! Não existimos para isso!  

Há quem acredite que uma pessoa só pode chegar à sua plenitude quando se está abastada de riquezas. Por vários anos fui conselheiro de pobres e ricos, e me sinto seguro em afirmar que a plenitude de uma pessoa só acontece quando se abdica dessa cultura insensata. Uma utopia? Talvez! Mas não dá pra negar que é a maior representação de força e sublimação do ser.

À medida que vamos acumulando riquezas, nos tornamos, gradativamente, cidadãos de nós mesmos. Nosso mundo vai ficando mais vazio e nossas vidas e relações mais superficiais e mais distantes daquilo que realmente importa. Renunciar as coisas que nos escravizam, que nos impedem de estar sempre ao lado das pessoas que realmente amamos, que destroem nossos sentimentos e nos angustiam, é o único meio para alguém encontrar a plenitude e tornar-se forte.  Necessidades e desejos sempre existirão, independentemente do quão farto alguém esteja. Como bem disse Epicuro: “nada é bastante ao homem para quem tudo é demasiado pouco”.  O propósito da vida não é lamentar a falta e sim, celebrar a suficiência.

Gente plena é aquele que interage consigo mesmo mais do que com seus negócios, que convive bem com todos, que toca e deixa tocar, que aprecia os pequenos gestos, que consegue expressar grande admiração diante de uma obra de arte, mesmo quando não se sabe quem a fez e o quanto vale. Gente plena possui coração altruísta, é temperante, sabe dar o devido valor às pessoas que realmente importam. Nunca se guia pela multidão, nem pelas tolas ambições. Ela é guiada pelo conhecimento empírico e cognitivo, temperado com uma boa dose de sensibilidade em relação à vida. É um ser singular.   

Gente plena pertence ao mundo e à vida, não às coisas! É aquela que, por ventura, interrompe sua maratona para pular poças d’água e comer frutos no pé. É alguém que procura viver o agora intensamente, certa de que a vida é efêmera. Gente plena não tem medo da falta, não tem religião, não tem nacionalidade, nem sobrenome ela tem.

Por Alvaro Santos

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