O que as sugestões de amigos no seu Facebook, o seu feed e seu cérebro têm a ver com Bolha Social?

O Facebook sugere, frequentemente, amigos que partilham de gostos e opiniões semelhantes às suas? Costuma lhe sugerir produtos convenientes? No seu feed, aparecem postagens de pessoas com as quais você vem interagindo mais ultimamente e ignora aquelas postagens de parentes com os quais você pouco conversa ou faz tempo que não vê?

Você se sente como um dos únicos que está vendo a situação claramente? De tal forma que, quando encontra algum comentário que expresse o seu pensamento, você se vê representado e aliviado por ter mais pessoas que pensam como você? Seus círculos sociais costumam ser formados por pessoas com pensamento muito semelhante? Resumindo, quanto contato você tem com opiniões diferentes e contraditórias?

Se as perguntas lhe soaram familiares (exceto a última, que é uma provocação), então, certamente esse texto tem uma reflexão interessante.

Hodiernamente, muito se utiliza o termo “Bolha Social”. Em um levantamento preliminar em revistas científicas e bancos de dados de dissertações de mestrado e teses de doutorado, não encontrei muitas menções a esse termo, o que me leva a concluir que não há uma conceituação científica do que vem a ser uma “Bolha Social”. Portanto, tentarei dar uma definição que contemple o uso social que vem sendo dado a essa palavra. Uma Bolha Social é um fenômeno de cunho social, no qual um determinado grupo de indivíduos que compartilham opiniões muito semelhantes se isola e se blinda de perspectivas e visões de mundo distintas das suas.

É comum, nessas denominadas Bolhas Sociais, a construção da imagem de um inimigo, podendo ser ele uma pessoa, um canal de televisão, uma doutrina filosófica, uma religião, um partido político, etc. A esse “inimigo”, atribui-se a responsabilidade por todos os erros ou males do mundo: crises econômicas, humanitárias, morais… são todas causadas por ele. A criação de um vilão é um recurso interessantíssimo do ponto de vista retórico, pois nada reúne mais pessoas do que o ódio em comum. Além disso, esse inimigo precisa ser poderoso e conspirador, precisa ocultar a “verdade” e agir nas sombras, pois, só assim, torna-se plausível o fato de haver um inimigo mundial contra o qual ninguém se ergue. Dessa forma, apenas alguns poucos privilegiados intelectualmente conhecem a “verdade”.

Ainda no que diz respeito às Bolhas Sociais, a não penetração de ideias contraditórias encontra uma explicação na Psicologia Cognitiva. Em 1990, uma cientista da Princeton University (EUA), chamada Ziva Kunda, publicou um artigo intitulado “The Case for Motivated Reasoning” (“O caso do Raciocínio Motivado”), no qual conclui que “é mais provável que as pessoas cheguem às conclusões nas quais desejam chegar” (tradução livre). Nesse estudo, pessoas foram colocadas em uma sala e avisadas de que iriam participar de um jogo. Em seguida, assistiriam “alguém” jogando e foi dito que esse “alguém” jogaria com ou contra elas. O estudo foi manipulado para esse “alguém” responder corretamente todas as perguntas. As pessoas que jogariam contra o desprezaram e atribuíram seu sucesso à sorte, enquanto aqueles que jogariam com ele admiravam suas habilidades. Outro conceito muito semelhante, também vindo da Psicologia Cognitiva, é o Viés de Confirmação, segundo o qual pessoas tendem a buscar evidências que corroboram as opiniões que já possuem e desconsideram opiniões contrárias. Quanto ao Viés de Confirmação, podemos citar um estudo feito em meados da década de 70 por pesquisadores de Stanford, no qual dois grupos de pessoas foram selecionados: um grupo contra e outro favorável à pena de morte. Ambos receberam dois textos, um corroborando a crença na pena de morte e outro, contradizendo essa crença, ambos falsos. O resultado é que ambos os grupos avaliaram o estudo que corrobora sua posição superior ao outro, portanto, grupos distintos tendem a encontrar suporte para suas posições distintas em uma mesma amostra. Esse fenômeno ajuda a explicar a polarização política, a persistência em crenças desacreditadas, a associação ilusória entre dois eventos, entre outros posicionamentos.

Mas o que tudo isso tem a ver com as perguntas com as quais iniciei o texto? Obviamente, nada do que está escrito aqui se aplica a você, leitor, pois você é o ápice da racionalidade, você vê tudo com clareza, não é manipulado e, muito menos, pertence a uma bolha. Será?

Primeiramente, devemos ter uma postura humilde perante as limitações humanas. Diferente do que pregaram muitos Iluministas, não somos seres de pura razão, somos racionais e irracionais também, temos comportamento de manada, agimos sem pensar e, muitas vezes, racionalizamos uma ação ao invés de raciocinar uma ação, ou seja, muitas vezes, agimos sem pensar e depois buscamos justificar o porquê de termos agido assim. Por mais racional que buscamos ser, por mais que estudemos, por mais que tenhamos poder ou dinheiro, ainda somos humanos, demasiado humanos.

Ocorre que as redes sociais se mostraram instrumentos fortíssimos na construção dessas bolhas sociais, e muito disso se deve ao algoritmo do Facebook e Youtube, entre outras redes. Como o Facebook sabe por quais produtos você irá se interessar? Como ele decide quais amigos te indicar? Como ele escolhe as postagens que aparecerão no seu feed e aquelas que serão ignoradas? Existe um código que funciona em analogia a uma receita de bolo, ao qual damos o nome de algoritmo, responsável por todas as operações e decisões dentro de uma rede social. O algoritmo do Facebook, por exemplo, privilegia apresentar-lhe propagandas de produtos que estejam relacionados a outros que você pesquisou recentemente. Por exemplo, se você pesquisou preço de celulares, o Facebook entende que você se interessa por celulares e pode lhe sugerir propagandas a respeito desse produto. Mas, como o Facebook sabe o que eu pesquisei no Google? Essa pergunta eu deixarei para que você mesmo responda. E os amigos que são sugeridos? Tente sair adicionando toda e qualquer pessoa que partilha uma posição política com você e verá como o Facebook tenderá a lhe sugerir ainda mais amigos que compartilham dessa mesma visão. Tal lógica vale no que diz respeito a postagens, e destas, as que terão prioridade para aparecer no seu feed também se relacionam a conteúdos que você consome frequentemente.

Se você leu o que foi exposto acerca do Raciocínio Motivado e do Viés de Confirmação, já deve ter percebido como essa dinâmica é perigosa, pois privilegia a construção de grupos isolados que não lidam bem com opiniões contrárias. É importante sairmos dessa Bolha, buscarmos informações, análises, vídeos e textos de pessoas que pensam diferente. Precisamos desse contato com o contraditório a fim de normalizar opiniões contrárias, gerando tolerância e até ganho intelectual e argumentativo. Temos que lembrar que somos seres humanos e, como tal, somos falhos. Assim sendo, permitir uma pluralidade de ideias é a única forma razoável de convivência pois, do contrário, afogaremo-nos em um mar de intolerância e falsas certezas.

Por João Pedro Sussel

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